'Veteranos' do Censo Experimental relembram com carinho, respeito e orgulho os desafios da jornada

| Da Redação

07/02/2020 14h00 | Atualizado em 07/02/2020 14h05

O Censo Demográfico 2020 vem aí. Para encarar o seu maior desafio da década, o IBGE vai contratar temporariamente mais de 200 mil pessoas para os trabalhos de coleta de dados, supervisão, apoio técnico-administrativo e apuração dos resultados. O edital do processo seletivo para recenseador – o que oferece o maior número de vagas – está previsto para ser publicado em fevereiro. Enquanto se espera pelos detalhes do edital, conversamos com trabalhadores que participaram do Censo Experimental de 2019, realizado de outubro a dezembro do ano passado em Poços de Caldas (MG). No período, cerca de 180 recenseadores visitaram os mais de 60 mil domicílios da cidade mineira. A partir da visão deles, é possível ter uma noção da rotina do censitário, do tamanho da empreitada e do impacto positivo na vida de cada um.

Formado em Publicidade e Propaganda, Karlo Antônio de Campos trabalhou muitos anos como leiturista de energia elétrica (aquele profissional que mede o consumo de casa em casa) e, assim, sentiu-se apto a colaborar com o Censo Experimental. Inscreveu-se para o cargo de recenseador e foi convocado. "Levei um pouco da experiência das ruas. É preciso saber lidar com o morador, respeitando os mais reservados e sendo expansivo com os mais falantes", explica. Para dar conta das 25 horas semanais, Karlo concentrava o serviço nos períodos da tarde e noite. No dia mais produtivo, chegou a visitar 35 domicílios.


Ao lado do observador Fernando Beiro (E), Karlo Antônio (de boné), formado em publicidade, foi recenseador em 2019.

Karlo recomenda o trabalho a qualquer um que tenha disposição para caminhar longas distâncias, sob sol e chuva, e que seja paciente para ouvir relatos. "Você tem que entender que faz parte de um todo e que seu trabalho vai impactar a coletividade. Toda entrevista precisa ser encarada com seriedade do começo ao fim", ensina. Foi com paciência e criatividade que Karlo conseguiu se desvencilhar de uma situação tortuosa. Dia chuvoso, já cansado e molhado, ele bate na última casa agendada. Quem atende é um estrangeiro, residente há pouco tempo no país, sem fluência no idioma pátrio. Para superar a barreira da língua, a entrevista teve de ser feita por meio de gestos e numa mistura de português com inglês. Por fim, ambos se entenderam e o questionário foi concluído com êxito.

Aos 52 anos, Ana Cristina Steigleder estava desempregada em Poços de Caldas e viu no Censo Experimental uma oportunidade de renda. De boné e colete, a psicóloga percorreu toda a cidade, sentiu-se bem recebida por onde andava e fechou mais de 300 entrevistas, trabalhando inclusive nos fins de semana. Gostou tanto da experiência que hoje recomenda o processo seletivo à filha universitária de 19 anos. "É um trabalho muito sério, com boa remuneração e pagamento em dia. Não tenho nada a me queixar", analisa. Ela diz que o DMC (Dispositivo Móvel de Coleta, o principal instrumento de trabalho do recenseador) é de fácil manuseio e muito intuitivo. "Em poucos dias, aquele aparelhinho já era meu melhor amigo".


Ao lado da filha (E), Ana Cristina (de boné) também trabalhou em Poços de Caldas.

Foi a oportunidade do primeiro emprego que motivou Daniele Custódio Santos Silva, de 33 anos, a tentar a sorte no processo seletivo. Com ensino médio completo, ela conta que se casou muito nova e nunca havia trabalhado. Como recenseadora, preferiu atuar cedo pela manhã, "antes das pessoas saírem para trabalhar". De noite, voltava às ruas apenas para resolver as pendências. "Recomendo esse serviço a todos os amigos. Mas é preciso ter paciência e dedicação, pois é uma grande responsabilidade. Aprendi como as pessoas vivem de verdade. O trabalho no IBGE me apresentou uma realidade que até então eu não conhecia", comenta.

Marcelo Carvalho Nascimento também conseguiu no Censo Experimental seu primeiro emprego formal. Aos 28 anos, o "concurseiro" (como ele mesmo se define) conquistou uma das vagas de Agente Censitário Supervisor (ACS). Ele lembra que o treinamento de oito dias é puxado e a rotina dos meses seguintes, desafiadora. "Destaco o trabalho em equipe e o comprometimento de todos com o serviço". Como aprendizado, diz ter se tornado mais paciente no trato com as pessoas. "Ganhei jogo de cintura para superar os obstáculos e cresci tanto como pessoa quanto como profissional", afirma.

Mas nem sempre o supervisor lida só com pessoas. "Um dia, precisei acompanhar uma recenseadora que estava com medo de visitar uma vila porque havia um cachorro bravo à solta, que sempre latia quando ela chegava perto. Fui ao lado dela e, ao vermos o cão, falei baixinho com ele e fiz carinho. O bicho amansou e nos seguiu de casa em casa logo depois", relembra Marcelo.

Assista aos depoimentos de alguns recenseadores que participaram do Experimental em Poços de Caldas (MG):

Um dos mais experientes da turma de supervisores, o engenheiro mecânico José Maurício Coutinho dedicou 35 anos à profissão de bancário. Aposentado desde janeiro de 2016, decidiu participar do Censo para viver novas experiências. "Não há rotina e o dia a dia é intenso, inclusive nos fins de semana", relembra. "Mas o trabalho em equipe, sem vaidades, com todos se ajudando em prol do bem comum, compensa todo esforço", acrescenta o veterano, de 59 anos. Coutinho credita a resistência de alguns moradores em abrir a porta e receber o pesquisador à falta de consciência da importância do trabalho do Censo. "Com um pouco de conversa, conseguimos sensibilizar a população sobre o dever de todos".

Entrar nos lares e fazer perguntas não é tarefa tão simples quanto parece. Que o diga Tatiana dos Anjos, recenseadora de 33 anos. Visitando mais de 15 casas por dia, a estudante de pedagogia sentia que nas vilas mais simples a receptividade era melhor que nos condomínios de classe média. "Talvez por medo da violência, as pessoas evitam abrir a porta para estranhos, apesar de estarmos uniformizados e com crachás de identificação", argumenta. "Além disso, alguns entrevistados de maior poder aquisitivo têm receio de revelar detalhes sobre renda".

Contudo, o maior obstáculo de Tatiana não foi o medo, e sim, o ciúme. Ela mesma explica o embaraço: "Toquei a campainha do apartamento com insistência, mas ninguém atendeu. Quando fui embora, um homem me abordou já na rua e disse que não abriu a porta porque a esposa não gostava de vê-lo conversando com outras mulheres. Ele precisou tirar uma selfie comigo para mostrar à esposa que eu era do Censo. Só assim ela me deixou entrar". A universitária conta que o casal respondeu tudo direitinho e, mais uma vez, encerrou o dia com a certeza do dever cumprido.

FRASES:

"O trabalho no IBGE me apresentou uma realidade que até então eu não conhecia"
Daniele Custódio Santos Silva, recenseadora 

"Você faz parte de um todo e seu trabalho vai impactar a coletividade"
Karlo Antônio de Campos, recenseador

"Cresci tanto como pessoa quanto como profissional"
Marcelo Carvalho Nascimento, supervisor

"O trabalho em equipe, sem vaidades, compensa todo o esforço"
José Maurício Coutinho, supervisor

"Fui recenseadora e hoje recomendo como primeiro emprego à minha filha"
Ana Cristina Steigleder, recenseadora

"As pessoas que visitei me reconhecem na rua e me perguntam quando será o concurso"
Tatiana dos Anjos, recenseadora

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